18/04/2018

​Projeto Relix: catálogo encerra edição com homenagem a catadoras de lixo

 

Texto de Mariana Mesquita, da Folha de Pernambuco

"Sustentar. A casa, a família, o corpo em pé, a cabeça erguida. Não é fácil ser mulher e catadora de lixo. Não é difícil perceber a importância de cada uma delas para a humanidade. Serem reconhecidas e respeitadas é o X da questão." O trecho que integra o catálogo do projeto Relix mostra a relevância do trabalho produzido pelas mulheres da Associação dos Recicladores de Olinda (ARO), que atuam na área do antigo Lixão de Aguazinha.

Com idealização e textos de Lina Rosa e fotografias de Beto Figueiroa, o catálogo foi lançado neste mês, no fechamento das ações desta etapa do projeto em Pernambuco (que atingiu um público de 35 mil pessoas com espetáculos e ações educativas sobre a importância da destinação correta do lixo). 

Promovido pelo Serviço Social da Indústria (Sesi), o Relix vem atuando em 23 municípios do Estado, com desdobramentos diversos; o catálogo, voltado para mostrar o cotidiano dessas mulheres, é apenas um deles. "São pessoas que muitas vezes nasceram dentro do lixo, e a partir dele constroem suas vidas. É um caminho de dignidade e respeito. A sociedade precisa entender a importância do lixo e da sua destinação correta, e elas são um exemplo muito importante nesse sentido", afirma o superintendente do Sesi-PE, Nilo Simões.

"Estas mulheres têm um papel fundamental na coleta seletiva. São exemplos de cidadania. Na Dinamarca e na Alemanha, já existe uma tendência à produção de lixo zero, e elas fazem isso naturalmente, em seu trabalho e em suas casas", acrescenta Lina Rosa, idealizadora do catálogo e do projeto.

Viver do lixo, porém, não é fácil. Enfrentando a crise da maneira que podem, as catadoras têm esperança de que suas histórias, alcançando maior visibilidade, possam significar novas parcerias e consequentemente, melhoria na renda. Quando a ARO foi criada (em 2010, logo após o fechamento do lixão), tinha 46 associados, a maioria homens. Hoje são 16, quase todos mulheres.

"Os homens não se habituaram a trabalhar em cooperativa, não sabem dividir", aponta a carroceira Renata Galvão da Silva. O valor mensal que conseguem apurar varia, mas é sempre baixo. "Mês passado foi R$ 330. Mas teve mês em que foi cem. Antes, eu conseguia tirar mil reais", conta Silvaneide da Silva, vice-presidente da ARO. "O demônio leva à saudade. As pessoas sentem falta da época em que o lixão estava ativo. Há uma enorme carência de suporte público, de forma geral", critica Lina Rosa.

Nina

Maria José de Santana, a Nina, tem 53 anos e um riso bom que se alastra pelos olhos. Casou aos 15 e foi trabalhar com o marido no lixão, há quase quatro décadas. Sobreviveu, construiu sua casa e criou os filhos a partir das coisas que outras pessoas descartaram. Eram dez crianças; hoje, só quatro estão vivos. O último a falecer foi Wellington, há pouco mais de um ano. A lembrança é uma das poucas coisas que fazem o brilho de Nina vacilar.

O filho tinha 27 anos, era formado em Direito e tinha passado num concurso para juiz. "Chegou até carta convocatória lá em casa", conta a mãe. Wellington morreu de "doença do rato", e não contraiu a leptospirose no ambiente de trabalho da família. Por ironia do destino, se infectou no trajeto do trabalho para casa. "O povo tem preconceito, vive falando que a gente vai pegar micróbio por trabalhar com lixo, mas eu nunca fiquei doente. O mundo é todo perigoso", lamenta.

Nina não apareceu no catálogo, apesar de ser uma das fundadoras da associação. No dia das fotos, estava fazendo o que mais gosta: passeando no caminhão da ARO. "Vou apanhar material reciclável e composteira nas empresas. Adoro sair, ver o mundo, debater sobre o lixo. Sempre vem alguém querer saber mais sobre nosso trabalho. Eu gosto muito de gente."

Renata

A morena miúda de 34 anos realizou um sonho de infância ao participar do catálogo. "Eu queria ser modelo", confessa Renata Galvão da Silva. Ela começou a trabalhar no lixão quando tinha apenas oito anos. "Minha mãe não gostava, eu vinha mais para brincar", relembra. Aos 14, teve o primeiro filho e precisou aprender a se sustentar. Teve seis crianças; perdeu duas. O mais velho tem 20 anos e a caçula, 7. A vida como catadora é dura. "Não tenho salário, não tenho carteira assinada, não tenho direito nenhum. Quando perdi um dedo na prensa de papelão, não pude ser afastada para me tratar. Até remédio tive que conseguir com as amigas", relembra.

Renata puxa carroça no Alto da Sé e traz o papelão para triar na ARO. Sua vontade é que a associação cresça, para que a vida de todas possa melhorar. "Meu sonho era poder investir na educação de meus filhos. Eu parei na 5ª série, mas não quero isso pra eles. A gente sem estudo não é nada", destaca. Mesmo tendo perdido o dedo anelar, o desejo nem tão secreto de Renata é oficializar o casamento com o marido, José Gomes, com quem vive há doze anos. "Quero casar, assinar papel e fazer uma festa bonita. Ainda consigo fazer isso, um dia", planeja.

Silvaneide

Vice-presidente da ARO, Silvaneide da Silva, de 45 anos, começou a trabalhar como catadora há 16 anos. Já era casada e mãe de cinco filhos, quando o marido ficou desempregado e vieram tentar a sorte no antigo Lixão de Aguazinha. Com nojo, ela colocava tanta roupa para ir trabalhar que não conseguia andar direito. Ela foi aprendendo a fazer coleta, teve mais quatro filhos, perdeu dois (um de pneumonia, outra do coração).

Na ARO, ela trabalha na triagem de materiais. Chega um pouco mais tarde porque também precisa dar conta da lida com o filho caçula, Mateus, seu "bebezão de doze anos". Até hoje ela não tem o diagnóstico preciso do mal que acometeu o menino, que andava, falava e era saudável até os dois anos. As tragédias cotidianas não impedem a doçura. A casa de Silvaneide é repleta de detalhes amorosos, pequenos tesouros que muitas vezes foram desprezados por outros lares. Mateus não fala e não anda, mas sorri quando ouve a voz da mãe, e é o centro da vida dela.